sexta-feira, 12 de junho de 2015

Especial: Citações de "A Insustentável Leveza do Ser"


Um especial contando as citações que mais me marcaram na leitura de "A Insustentável Leveza do Ser - Milan Kundera"


Capa meramente ilustrativa

Não há forma nenhuma de se verificar qual das decisões é melhor porque não há comparação possível. Tudo se vive imediatamente pela primeira vez sem preparação. Como se um actor entrasse em cena sem nunca ter ensaiado. Mas o que vale a vida se o primeiro ensaio da vida já é a própria vida? É o que faz com que a vida pareça sempre um esquisso.

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Tereza era uma criança que alguém pusera numa cesta untada com pez e abandonara às águas do rio.

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Se Políbio não tivesse recolhido Édipo, Sófocles não teria escrito a sua tragédia mais bela!

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Tomas ainda não sabia que as metáforas são uma coisa perigosa. Com as metáforas não se brinca. O amor pode nascer de uma única metáfora.

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Entre o medo e o desejo, arranjara um compromisso; era aquilo a que chamava amizade erótica. Dizia peremptoriamente às amantes: só uma relação expurgada de todo e qualquer sentimentalismo, só uma relação em que nenhum dos parceiros se arrogue qualquer direito especial sobre a vida e a liberdade do outro, pode fazê-los felizes a ambos.

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A partilha do sono era o corpo de delito do amor.

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O amor não se manifesta através do desejo de fazer amor (desejo que se aplica a um número incontável de mulheres), mas através do desejo de partilhar o sono (desejo que só se sente por uma única mulher).


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Não há nada mais pesado do que a compaixão. Mesmo a nossa própria dor não é tão pesada como a dor co-sentida com outro, por outro, no lugar de outro, multiplicada pela imaginação, prolongada em centenas de ecos.

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Numa aula de trabalhos práticos de física, qualquer aluno pode fazer uma experiência para confirmar uma dada hipótese científica. Mas o homem, porque só tem uma vida, não tem qualquer possibilidade de verificar as hipóteses através da experiência e nunca poderá saber se teve ou não razão em obedecer aos seus sentimentos.

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Mas havia mais uma coisa: um livro aberto em cima da mesa. Nunca ninguém abrira um livro numa mesa daquele café. Para Tereza, o livro era o santo e a senha de uma irmandade secreta.

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Não há, portanto, razão nenhuma para censurar aos romances  o seu fascínio pelos misteriosos cruzamentos dos acasos (por exemplo o encontro de Vronsky, de Ana, do cais e da morte, ou o encontro de Beethoven, de Tomas, de Tereza e do copo de aguardente), mas há boas razões para censurar o homem por ser cego a esses acasos na sua vida quotidiana e assim privar a vida da sua dimensão de beleza.

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O que distingue as pessoas que estudaram dos autodidactas não é o seu nível de conhecimento mas o grau de vitalidade e de confiança que têm em si próprios.

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Quem vive no estrangeiro deixa de ter por debaixo de si a rede de segurança que é; para todo o ser humano, o país natal, o país onde se tem a família, os colegas, os amigos e onde é fácil fazermo-nos entender na língua que conhecemos desde crianças.

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Temos consciência da nossa fraqueza, mas, em vez de resistir-lhe, queremos abandonar-nos a ela. Embriagamo-nos com a nossa própria fraqueza, queremos ficar ainda mais fracos, cair por terra em plena rua à frente de toda a gente, ficar por terra, ainda mais abaixo do que a terra.

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Enquanto as pessoas são novas e as partituras musicais das suas vidas ainda só vão nos primeiros compassos, podem compô-las em conjunto e até trocarem temas (como Tomas e Sabina trocaram o tema do chapéu de coco). Porém, quando se conhecem numa idade mais madura, as suas partituras musicais já estão mais ou menos acabadas e cada palavra, cada objecto, tem um significado diferente na partitura de cada uma.

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Sabina pensa que, face a um estado que nos é imposto, temos de saber adoptar a melhor atitude possível. Parece-lhe tão absurdo insurgir-se contra o fato de ter nascido mulher como glorificar-se com ele.

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A primeira traição é irreparável. Por relação em cadeia, provoca outras reacções que fazem a pessoa afastar-se cada vez mais do ponto da traição inicial.

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[...] quanto mais um homem cresce na sua obscuridade interior, mais diminuído fica na sua aparência física. Um homem de olhos fechados não é senão um rebotalho de si próprio. Como não quer assistir a isso, Sabina também fecha os olhos.

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Para Sabina, viver na verdade, não mentir nem a si próprio nem aos outros, só é possível se não houver público nenhum. A partir do momento em que os nossos actos têm uma testemunha, quer queiramos quer não, adaptamo-nos aos olhos que nos observam; e, a partir de então, nada do que fazemos é verdadeiro. Ter um público, pensar num público, é viver na mentira.

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Ambos se aturdiam numa traição que os libertava. Franz cavalgava Sabina e traía a mulher, Sabina cavalgava Franz e traía Franz.

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O que dá sentido à nossa conduta é sempre uma coisa completamente desconhecida. Também Sabina não sabe que fim se oculta no seu desejo de trair. A insustentável leveza do ser poderá ser considerada como um fim?

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Sabia desde esse tempo que o campo de concentração não é nada de excepcional, nada que nos deva surpreender, mas qualquer coisa de dado, de fundamental, qualquer coisa onde se chega quando se vem ao mundo e de onde não nos podemos evadir senão através de uma extrema tensão de todas as nossas forças.

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Sabe que lhe é pesada: leva as coisas demasiado a sério, leva tudo para o trágico, não consegue compreender a leveza e a alegre futilidade do amor físico. Gostava tanto de aprender a leveza! Gostava tanto que lhe ensinassem a deixar de ser anacrónica!

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Estavam em plena coquetterie: aquele comportamento que deve sugerir que a aproximação sexual é possível, mesmo que se trate apenas de uma eventualidade sem garantias e absolutamente teórica.

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As privadas das casas de banho modernas erguem-se do chão como uma flor branca de nenúfar. Os arquitectos fazem os impossíveis   para que o corpo esqueça a sua miséria e para que o homem não   saiba o que acontece às dejecções das suas vísceras quando a água   do autoclismo, a gorgolejar, as expulsa da vista. Embora os seus   tentáculos se prolonguem até nossas casas, os canos de esgoto estão   sempre cuidadosamente disfarçados e por isso não sabemos absolutamente nada a respeito das invisíveis Venezas de merda sobre as quais se encontram construídas as nossas casas de banho, os nossos quartos, os nossos salões de baile e os nossos parlamentos.

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[...] os amores são como os impérios: desaparecendo a ideia sobre a qual estão construídos, também eles desaparecem.

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Mas: alguém pode estar inocente só por não saber? Um imbecil sentado num trono pode ser desculpado de tudo só pelo fato de ser imbecil?

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Quando nos encontramos perante uma pessoa que se mostra amável, deferente e cortês para connosco, é muito difícil estar sempre a pensar que nada do que está a dizer é verdadeiro, que nada é sincero.

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Como já disse, as personagens não nascem de um corpo materno como os seres vivos nascem, mas de uma situação, de uma frase, de uma metáfora que contém em germe uma possibilidade humana fundamental, que o autor pensa que nunca ninguém descobrira antes dele ou então que nunca ninguém tratara de modo a dizer algo de essencial sobre ela.

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As personagens do meu romance são as minhas próprias possibilidades não realizadas..

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O romance não é uma confissão do autor, mas uma exploração do que a vida humana é nesta armadilha em que o mundo se converteu.

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A história é tão leve como a vida do indivíduo, insustentavelmente leve, leve como uma pena, como poeira ao vento, como uma coisa que há-de desaparecer amanhã.

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Todos nós temos necessidade de ser olhados. Podíamos ser divididos em quatro categorias consoante o tipo de olhar sob o qual desejamos viver. A primeira procura o olhar de um número infinito de olhos anónimos ou, por outras palavras, o olhar do público.

Na segunda categoria, incluem-se aqueles que não podem viver sem o olhar de uma multidão de olhos familiares. São os incansáveis organizadores de jantares e de cocktails.

Vem em seguida a terceira categoria, a categoria daqueles que precisam de estar sempre sob o olhar do ser amado.

Finalmente, há uma quarta categoria, bem mais rara, que são aqueles que vivem sob os olhares imaginários de seres ausentes. São os sonhadores.

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Se somos incapazes de amar, talvez   seja por desejarmos ser amados, ou seja, por querermos alguma coisa do outro (o seu amor), em vez de chegarmos junto dele sem  reivindicações e não querermos senão a sua simples presença.

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O tempo humano não anda em círculo, mas avança em linha recta. Por isso o homem não pode ser feliz: a felicidade é desejo de repetição.

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Um belo dia, sem saber muito bem como, toma-se uma decisão, e depois essa decisão ganha a sua inércia própria. Cada ano que passa é um bocadinho mais difícil mudá-la.

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Esse é um daqueles livros que te marcam como leitor, por isso dediquei um post especial apenas com suas citações. Aproveite para ler a resenha, caso ainda não tenha visto, e aprecie este romance incrível!


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Nota: Por ser uma leitura digital, não foi possível especificar qual o número da página para cada passagem, estas estão organizadas em ordem de aparecimento. O texto aqui exposto foi retirado da edição portuguesa, vide resenha para mais detalhes.

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2 comentários:

  1. Tatiana R. Castro15 de junho de 2015 17:39

    Esse livro já está na minha lista, obrigada por me lembrar dele!
    SUA ESTANTE

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  2. Tatiana R. Castro16 de junho de 2015 01:26

    O Processo desse mesmo autor é um dos meus livros preferidos.

    SUA ESTANTE

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